A21

Retalhos de uma vida entre Mafra e Lisboa

Sherlock Holmes uma sombra de si próprio…

Um dos meus autores de eleição, especialmente na adolescência, foi sem qualquer sombra de dúvida Sir Arthur Conan Doyle. E muito por causa dos romances de Sherlock Holmes. Isso levou mais tarde a ser dos primeiros livros que me aventurei a ler na língua original, mesmo existindo traduções para a nossa. Sempre gostei do espírito analítico desta personagem, a sua atitude perante o mundo, que ele simplesmente acha incrível não reparar nas coisas tão elementares. Torna-o um personagem ainda mais complexo a sua paixão à ciência e ao conhecimento, que o torna quase um ser assexuado. A sua relação, de amizade quiçá,  com Watson, que sem dúvida o admira mas passa um cabo dos trabalhos nas suas mãos.

E no recente filme de Guy Ritchie, isso foi das poucas coisas em que acabou por ser fiel ao personagem de Doyle, a sua relação com Watson, que está mesmo muito bem conseguida e retratada. O resto… Bem, ver Sherlock como uma pessoa atormentada pelo destino da sua amante, é estranho, para não dizer mais. As cenas de pugilato e kung-fu, mesmo que em livros como “O sinal dos quatro”, seja referido que Sherlock foi um pugilista na sua juventude, parecem excessivas e são muito mais presentes que as cenas de análise pura. Isto para não me lembrar que muitas das cenas de análise são feitas como uma forma de imaginar e simular combates, para depois usar técnicas de slow motion à lá Matrix.

Mas para mim, muito mais distante que a parte física, incomoda-me a parte psicológica. Sherlock, um personagem que conheço como frio, calculista e quase socialmente desligado, torna-se de repente um James Bond vitoriano. Impulsivo ao extremo, quase desejoso de entrar em combate e até resistente a tortura física ao nível de Rambo.

Isto quer dizer que foi uma má experiência, e um mau filme? Não necessariamente, isto se me desligar de que era Sherlock Holmes. A banda sonora está bastante boa, no momento certo e coesa. A fotografia está muito boa, com o estilo a que somos habituados em filmes que retratam a época vitoriana, a até as cenas de acção são bastante boas e entretêm. Não é de facto um filme de grande cariz psicológico, nem que nos faça pensar ou sequer maravilhar pela interação entre personagens e os seus diálogos. Mas para quem quiser ver apenas um filme num sábado a noite, para descontrair de uma semana de trabalho, não deixa de ser uma boa escolha.

Taxa nas Bebidas Alcoólicas para Políticos

Tanto se tem falado na questão da pirataria, tentemos extrapolar esta questão para outros meios, e imaginar uma situação.

Um tipo chega ao stand da conceituada marca de cutelaria ICEL (portuguesa porque devemos promover o que é nosso), e pergunta o preço de uma magnifica faca de Chef.

- Vinte euros é quanto ela custa antes de impostos meu caro. – Responde o vendedor.

- Bem então como o IVA está bem caro, nos seus 23%, lá terei de gastar quase 30 euros certo.

- Não só, infelizmente como esta faca pode ser usada para fazer um prato do Chef João Avillez, uma cara deputada do PS propôs uma lei para enviar ao Chef dez cêntimos por cada unidade vendida…

- Mas isso não faz sentido nenhum! – Replica indignado o nosso caro consumidor.

- E ainda terá de pagar mais dez cêntimos, pois com esta faca também pode cortar corda, e depois disso dar um nó de marinheiro. Logo segundo outra lei terá de lhes pagar também esse valor em impostos.

- O quê? Mas está tudo doido!

- Ah! Por falar em doidos, houve um doido que matou um Periquito de uma espécie protegida com uma faca, logo a nossa deputada do PS fez passar uma lei que promove uma taxa de um euro para a preservação das especies de periquito protegida na compra de uma faca.

Ridículo? Claramente, mas é isto que querem fazer com a lei da deputada, e ex-ministra do PS, Gabriela Canavilhas, com as tecnologias. Basicamente todo e qualquer dispositivo com memória informática, sim desde um CD até ao rádio do seu carro se for um dos novos modelos com memória interna, terá de pagar uma taxa à Sociedade Portuguesa de Autores. Porque? Porque se tem memória talvez possa pensar em piratear algum conteúdo criado que possa ter sido feito por algum artista que faça parte da Sociedade Portuguesa de Autores…

Sinceramente, achava mais justo uma taxa nos fósforos e isqueiros destinada para os bombeiros para a prevenção de incêndios, visto sem dúvida que eles podem ser usados para tal fim. Ou então uma taxa nas bebidas alcoólicas para financiar as bebedeiras de alguns políticos. Sim, porque com medidas destas, provavelmente foram influenciados por alguma bebida bem forte…

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IVA: As contas bem feitas…

Mais um ano, mais uma alteração de impostos. E mais uma vez a confusão habitual, e a suspeita que nos estão a ir ao bolso em cada compra.

O que foi alterado, e que é mais significativo nesta contabilidade, é a restauração. Sim, eu sei que também mais produtos foram alterados, mas quero centrar-me na restauração, apesar das contas serem válidas para todos os casos.

Tomemos por exemplo o café. Normalmente pagava-se 0.60€ aqui onde costumo beber, e houve quem suportasse o aumento do IVA por parte do vendedor, e outros que o cobraram ao consumidor final. E qual a conta. Ora bem, o IVA subiu de 13% para 23%, logo 10% de aumento, ou seja a bela da bica passa aumenta 10%, para 0.66€, e como este número não é “redondo” lá vai ela para os 70 cêntimos… Aqui já estávamos a ser comidos no arredondamento, mas nem é apenas por aí. Muita gente aumentou apenas para 65 cêntimos, e diz logo de seguida, para nos provar a sua magnanimidade que devia ter aumentado para 66, porque são 10%, mas como são porreiros, até suportam esse cêntimo eles.

Nada mais errado, e mais uma vez por erro de matemática simples.

Vamos fazer as contas, um café custava 0.60€, mas este preço, e aqui está o cerne da questão, já incluía o IVA. E o que aumentou foi o IVA, não o valor do produto todo. Logo o preço do café sem imposto seria de 0.60€ a dividir por 1.13 (o antigo IVA), ou seja 0,53€. E é a este valor que devemos aplicar o novo IVA, multiplicando por 1.23, ficando o valor final em 0.65€. Nem parece muito, mas agora passemos para outros valores. Numa maquina de café empresarial, daquelas concessionadas onde empresas externas deixam café em Empresas ou Universidades, o café que me custava 0,25€ subiu para 0,30€. Este aumento refletiria uma subida para 38% de IVA, em vez da subida para 23%…

E uma conta de restaurante de 50€.  Muita gente a subiu para 55€, aplicando os tais 10%, mas na prática deveria ter subido para 54€. E sim, é “apenas” 1€, mas quanto maior for o valor base, maior ainda será esta fatia que vai sair do bolso do consumidor, por mais uma vez ser levado nas contas de merceeiro dos nossos estabelecimentos.

E isto é matemática da mais básica que existe, mas que por incrível que pareça, muito bom Português ainda desconhece ou falha… Mas depois protestam por tirarem carga a atividades extra curriculares no ensino básico, em favor de mais horas de Português e Matemática…

E em Portugal quando fazemos isto?

Um tribunal francês declarou esta manhã o antigo Presidente Jacques Chirac como culpado dos crimes de desvio de fundos públicos e abuso da confiança pública.

in Público

Existe um certo estudante em Paris que se calhar fazia falta também levar a tribunal…

Criminosos e não activistas

O pórtico de cobranças de portagens de Boliqueime, na Via do Infante (A22) foi atingido esta madrugada a tiro de caçadeira e os equipamentos eléctricos foram incendiados.

in Publico

Vejo por esta blogosfera fora, e agora o Facebook que em muito lhe conquistou lugar, urros de vitória e de aprovação a este crime perpetrado no Algarve. Não consigo, nem quero, entender o que se passa na cabeça destas pessoas. Desde quando é que a utilização de armas de fogo para destruir bens, públicos ou privados, pode ser considerada uma forma de protesto?

Desde quando é que destruir algo pelo fogo é considerado uma forma de protesto? Nem neste caso, nem no caso das cadeiras do estádio da luz (e eu sou um Sportinguista até faccioso demais por vezes…), nem em qualquer outro caso acho que violência pura, gratuita e criminosa deva ser considerada uma forma de luta num estado democrático.

Quanto à questão das portagens… essa comentarei depois, mas ainda esta semana.

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O Euro e o Escudo

Nestes últimos tempos muita gente tem vindo a dizer que devíamos sair do Euro, que é a fonte de todos os males da nossa economia. Além disso, muita gente afirma que sendo bom ou não, é uma situação que será muito provável vir a acontecer. Mas o que significa isto de sair do Euro para as economias de cada pessoa, e para a sua situação do dia a dia?

Primeiro que tudo, o que sucederia era uma cisão do escudo com o Euro e a provável emissão inicial de Novo Escudo (aqui representado por $) com a taxa de conversão de 1$ para 1€. Ou seja se uma pessoa receber 500€ por mês, passa a receber 500$, ou seja o mesmo valor. Mais ou menos…

Na verdade o mais provável era o Novo Escudo ter uma queda abrupta no mercado internacional, e apesar da taxa de lançamento ser essa, e os ordenados terem sido recalculados nessa taxa, estes teriam uma queda imediata. Um estudo recente aponta que a queda provável rondaria os 40%, e será esse valor que para o resto deste pensamento vai ser tomado em conta.

Isto significa que no momento zero da vida do Novo Escudo, o ordenado dessa pessoa, seriam 500$ iguais aos 500€ que recebia. Mais, os 10000€ que tinha no banco, a pensar em comprar um carro novo (sim estou a ser otimista), seriam 10000$. Problema zero porque todos os preços seriam convertidos da mesma forma, tal como impostos e afins.

O problema está na altura de comprar ao estrangeiro. Visto a nossa moeda estar desvalorizada, imagine que precisa de abastecer gasolina. Como Portugal não é produtor, teríamos de comprar ao estrangeiro, como a moeda está desvalorizada, em vez de pagar os 1.5€/litro que paga hoje em dia, teria de pagar esse valor, acrescido de 40%, que na prática é o valor que a nossa moeda perderia para o mercado internacional. Ou seja, 2.1$/litro.  Aqueles 10 mil euros que o nosso sujeito de teste tinha de lado para comprar um carro novo? Como é comprado ao estrangeiro, teria de se contentar com um carro de 6 mil… Agora aplique isto a energia,  tecnologia, muita da roupa,  automóveis. Seria o descalabro nas nossas compras.

O Português teria uma queda real de nível de vida na casa dos 25-30%. E o porque dos 25-30%, e não os 40%? Basicamente porque os nossos produtos internos seriam mais baratos para nós, e tudo aquilo que se consome localmente, ficaria mais barato. Outro ponto favorável, seria as nossas exportações. Ao termos uma moeda mais fraca, venderíamos mais barato a nossa produção, logo teoricamente venderíamos mais. Certas áreas também teriam uma queda no desemprego, visto a nossa mão de obra ser mais barata para as empresas estrangeiras, logo facilitando a sua vinda. Não pela qualidade do nosso trabalho, mas por ser barato.

Com este cenário total, até parece que os aspetos positivos são muitos, e suficientes para cobrir os negativos, mas olhando um pouco à nossa realidade, e à nossa balança comercial, desde logo se vê que que não seria bem assim. Somos altamente dependentes do estrangeiro a nível tecnológico, energético e até a nível alimentar. Espero seriamente não ver o dia em que Portugal saia do Euro, mas se isso acontecer, e eu souber algum tempo antes, todo o dinheiro que tiver será convertido em Ienes mal o banco me permitir…

Transformar pessoas em cobradores

Uma das medidas menos faladas do Orçamento de estado 2012, e por lado uma das mais interessantes, é para mim a possibilidade de deduzir até 5% do valor total das compras de particulares, em sede de IRS.

Basicamente o que isto significa é que cada pessoa, cada vez que for às compras, ao restaurante, ou a qualquer outro sitio, e efectuar uma compra, poderá deduzir 5% do IVA desse produto quando apresentar o seu IRS.

Para quem for mais ingénuo, poderá pensar que isto é apenas uma medida de fomento ao consumo, e uma forma de receber parte do que se gasta de volta, ajudando a minimizar um pouco o resto da subida de impostos. Não poderiam estar mais enganados. Por um lado, tudo isso é verdade, por outro, e pensando um pouco mais à frente, o verdadeiro alcance da medida aparece: tornar o cidadão um cobrador de impostos.

Muitas vezes, e mesmo com inúmeras campanhas em contrário, quando efectuamos alguma compra, ou pagamos algum serviço, dispensamos a factura. Não nos serve para nada, e damos pouca importância a esse documento. No entanto uma das melhores formas para se conseguir uma fuga ao fisco, é evitar passar facturas, logo evitando devolver o valor de IVA ao estado.

Ao dar algo ao comum mortal para ele fazer com as facturas, e neste caso o algo é dinheiro. E dinheiro as pessoas querem, e estão dispostas a ter um pouco mais de trabalho por causa disso. É neste momento expectável que aumente o número de facturas emitidas, aumentando a eficácia da tributação do IVA. Isto enquanto se dá ligeiramente mais dinheiro ao consumidor, e se fomenta o consumo.

Quanto a mim, muito bem imaginado, e concretizado.

Coelhos com tomates

Existe uma coisa que me faz confusão nos discursos de muita gente de esquerda, e dos protestantes, a maioria deles da minha geração, nos últimos dias. Ambos dizem que não devemos pagar nada, e que tudo se resolve sem problemas. O mesmo para milhares de funcionários públicos chocados com os cortes terem recaído sobre os seus ombros.

Meus amigos, vou dizer algo que pensava que todos já deviam saber. O estado não tem dinheiro. Esta é a mais dura das realidades. Políticas criminosas, e práticas igualmente criminosas de compadrios e afins,  conduziram-nos a esta situação, e estou cem por cento de acordo que os responsáveis deviam ser entregues à justiça. Mas o problema agora é o que fazer, como meter o estado a carburar bem, e a pagar as obrigações do dia a dia, já hoje.

O estado português é gordo, pesado e excessivo. Não tem um verdadeiro controlo de qualidade nos recursos humanos que alberga, ao contrário do sector privado onde se tem realmente de trabalhar, e apenas é bom profissional quem tem brio, e gostem ou não, são poucos. Para piorar isto, até agora o estado em média pagava melhor que o sector privado. Tudo isto não faz sentido nenhum. Passos Coelho vai mexer aqui, vai perder milhares de votos no processo, mas teve de o fazer, pois dinheiro não existe, e chega de politicas Guterristas de enfiar a cabeça na areia, ou de mentiras Socráticas.

Outro ponto necessário era ajudar as empresas privadas em altura de crise. Falou-se em baixar a Taxa Social Única sobre as empresas. Era uma medida que claramente agradava às empresas, mas que gastaria dinheiro ao estado. Como o estado não tem dinheiro, teria de ser feita alguma ginástica, aumentando outros impostos, para poder fazer isto. Inventivamente o governo resolveu aumentar, também temporariamente, o número máximo de horas de trabalho diárias, dando algo às empresas, não gastando dinheiro do estado. Vai-me custar obviamente no pelo isto, se bem que ao contrário do funcionalismo público, já é raro o trabalhador do privado que cumpra o horário à risca, e não fique lá mais um bocado a acabar coisas. Mais uma medida que vai fazer perder votos a Pedro Passos Coelho, mas que infelizmente, devido à situação do país, tem todo o meu apoio.

Agora fala-se que o próximo sector a afectar fortemente será o sector de transportes públicos do estado. Mais uma vaca sagrada do estado que dá um prejuízo gigantesco, e que não se percebe. Todas as empresas transportadoras do estado dão prejuízo forte, no entanto as mesmas do sector privado, lembro-me aqui logo do Grupo Barraqueiro, dão lucros constantes e sólidos. Será por medidas como os motoristas da Carris trabalharem apenas 4 horas por dia, com ordenados acima da média, e que os filhos, genros, enteados e primos terem viagens à borla em toda a rede? Como este exemplo há tantos outros, e que têm de ser cortados.

Tenho muitos amigos, familiares e conhecidos que são funcionários públicos, em todas as áreas, mas têm de admitir que isto não podia continuar assim.

Sei que com tudo isto vai provavelmente fazer Passos Coelho perder as próximas eleições, a não ser que daqui a quatro anos isto já estivesse num nível muito melhor. Mas penso que esta atitude de coragem do nosso Primeiro-Ministro, ao contrário do último que oferecia computadores à custa do dinheiro dos contribuintes, parece-me ser o caminho a seguir. Força, e viva Portugal.

Às vezes a democracia custa…

A democracia, representativa no caso Português, é um principio de liberdade, e de colocar a responsabilidade para o cidadão na escolha de quem deve gerir o que é Público. Ontem fez-se democracia na Madeira, será correcto dizer isto?

Para mim, e ignorando as questões sobre a minha opinião pessoal sobre a figura de Alberto João Jardim  e os seus desvarios governativos,  tenho de admitir que se fez. As pessoas votaram, e escolheram. Como são os madeirenses os eleitores para aquele órgão de soberania, cabe a eles, e apenas a eles, decidirem, e foi o que fizeram.

Claro que vem logo a malta do costume queixar-se que as eleições foram negativas, e pouco representativa, devido ao facto da enorme abstenção. Meus caros, quem não vota, é porque não quis ser representado. Passo a frente.

Mas para mim, o ponto alto da noite, e um hino à falta de democracia, cabe mais uma vez ao PCP, na voz do seu líder Jerónimo de Sousa.

Um resultado explicado pelo sentimento de desânimo designadamente de apoiantes da CDU que, fustigados de forma mais particular pelo agravamento exponencial das injustiças, do desemprego e da pobreza, não acreditaram que com a sua decisão e o seu voto podiam contribuir para penalizar quem lhes agravou as condições de vida e reforçar aqueles com quem contam para construir uma vida melhor.

- Jerónimo de Sousa

Ou seja, este senhor acha que a culpa das pessoas não votarem CDU foi estarem desanimados, e que esse voto não iria mudar nada. Será que este senhor leu parcialmente bem a questão? É que na prática o que ele admite, e que eu concordo, é que a população acha que as suas ideias, e o seu partido não fazem, nem farão, nada para melhorar o País ou a Região. Estou plenamente de acordo. Se calhar o próprio Jerónimo é que não, mas só se dará conta disso quando entender o que realmente disse…

Mas também resultado da dispersão de votos em candidaturas inconsequentes e até provocatórias, que embora sem projecto nem valor próprio beneficiaram de uma generosa mediatização destinada não só a favorece-las mas a impedir o crescimento da força mais consequente e capaz de se opor e dar combate ao programa de exploração que atinge os madeirenses.

- Jerónimo de Sousa

Votos em candidaturas inconsequentes e até provocatórias? Quem é o senhor Jerónimo para dizer isso? O partido trabalhista, conhecido como partido do Coelhinho, tem um ridículo, e até mal educado, mas tem tanto direito como o PCP ou qualquer outro. Mais, na Madeira actual, até tem mais direito, pois teve mais votação. E quando o líder da bancada parlamentar do partido de Jerónimo de Sousa, Bernardino Machado, vem dizer que a Coreira do Norte e Cuba são democracias, não é isso mais inconsequente e até provocatório? Quando convidam lideres de organizações terroristas como as FARC, para a festa anual do seu partido, quando estas são perseguidas por governos democráticos de países com relações cordiais com Portugal? Isso não é muito mais inconsequente e provocatório que as palermices do líder do partido trabalhista?

Caro Jerónimo de Sousa, eu sei que o senhor não dá muito valor à democracia, senão não defendia os regimes actuais e históricos que defende, mas esta funciona assim: ganha quem tem mais votos colocados nas urnas. Os que ficaram em casa, não são seus para vir tomar posse deles, nem vitórias morais servem para alguma coisa. Felizmente graças ao 25 de Novembro de 1975, o povo é quem mais ordena. Mesmo quando coloca tipos que me parecem retirados de um conto de humor no poder.

Mafra

Situada inicialmente num vale fica a bela e tão característica Mafra. Subiu para ficar placidamente colocada à sombra do seu Convento,  um dos mais magníficos monumentos que conheço, senão o mais magnífico, aquando da sua construção mas continuou sempre igual a sí mesma.

Terra do seu Palácio, ex-libris aqui, e em qualquer parte do mundo. Quem dúvida da magnitude desta obra, que faça uma fotomontagem, e a coloque em qualquer cidade do mundo, e verá que ficará imponente. Esta é uma das suas faces. Mas não fica por aqui, pois edifícios com poder de nos deixar pequenos ao olhá-los, existem sem dúvida muitos. Mas depois o som aparece, e edifícios com uma colecção de seis magníficos orgãos de tubos, não existem. Mais, além disso dois carrilhões completos, e com um poder sonoro único, culminados pela força do seu Sino Maior, o Bizarro. Inigualável. Magnificas estátuas na sua fachada e interior, italianas as primeiras, mas como aqui não se queria apenas comprar, mas também aprender, depois criadas em Mafra, na sua escola de escultura. Tudo isto, e a Tapada, Jardim do Cerco,e Basílica, fazem um edifício unico, mas quando perguntamos qual o ex-libris dentro deste ex-libris, qual a resposta unânime? A Biblioteca. Magnanima em aspecto, e na inigualável quantidade de cultura que alberga, de lembrar que mesmo no tempo da censura e da inquisição, ela continha os livros proibidos, é a parte mais importante de todo este magnifico Palácio/Convento de Mafra. Quando entre tanta beleza física, o mais importante é a cultura, algo de muito especial está presente.

Mas Mafra não é apenas o Palácio, por muito magnifico que seja. Mafra é mais que tudo as suas gentes. Habitada desde o Neolitico, foi ocupada por todos os povos que passaram por Portugal, mas a transição mais interessante é presente aquando da sua conquista por D. Afonso Henriques aos Mouros. Foi apenas mais uma vez, e que tantas se seguiram, em que a população não vergou. Manteve-se como era, não se quis adaptar logo à nova ordem, e como havia sido entregue ao Bispo a sua posse, bem negociou a sua independencia, foral e liberdade de culto. Conseguiu-o, ficando com foral, e homens livres, sendo por isso um dos concelhos mais antigos do país. E como troca, teve de passar a pagar um imposto para poder fazer o Pão, em troco dessa liberdade. Esse imposto, chamava-se Çalaia, e quem o pagava, a pouco e pouco passou a ser conhecido como Saloio. Como tantas vezes ouvi e oiço da boca do meu pai: “Sou Saloio sim, mas parvo não”. E neste orgulho em ser Saloio, perdido noutros concelhos saloios como Sintra e mesmo Cascais, Mafra é ainda diferente e muito me orgulha.

Esta pão é tão conhecido como o próprio palácio a nível nacional. Seja ele simples, ou com chouriço (outro produto bem querido do Saloio), quantas vezes o levei para os colegas do trabalho, pois era algo tão apetecível como um doce regional de outras zonas. Produto regional de qualidade ímpar, e do qual sou um confesso apreciador.

Nasci nesta bela vila, pelo menos é isso que vem nos registos, o local de onde me retiraram da barriga da minha mãe, apenas para ela me trazer de imediato para aqui, é apenas um percalço. Sempre tive orgulho em dizer aos colegas da Faculdade, e depois de Trabalho, que ia no Natal à terra dos meus pais, até lançar a graçola que a terra dos meus pais, era na realidade a minha, tal como também tinha sido a dos meus avós. Mas vinte e oito anos depois isso vai mudar.

Mafra, sempre ouvi dizer que eras Mãe para os de fora que em ti vieram habitar, e Madrasta para os que aqui nasceram, mas felizmente não posso concordar. Para mim sempre me trataste como um filho, e eu te acolhi como Mãe. Parto por vontade para fazer uma vida a dois com alguém que amo, mas no meu coração irá sempre existir um lugar para Mafra. Posso vir a viver em muitas terras, ser feliz em muitos lugares, mas a minha Terra, essa nunca será outra, serei sempre de Mafra, e um Mafrense e Mafrista convicto.