“Eu não precisava deste tipo de concorrência”Robert Jordan

Na primeira vez que surgiu nas bancas A Song of Ice and Fire, o blurb (aquelas pequenas frases de outros autores e/ou imprensa, que normalmente surgem na capa, badana ou cinta de um livro) era este de Robert Jordan, cuja morte comentei recentemente. Ao dar a notícia da morte de Jordan, George Martin refere isso mesmo, e que muitas das vendas iniciais que teve se devem a estas palavras. Mas felizmente não eram palavras de circunstância e muito menos vazias, e é curioso terem ambos sido lançados no mesmo Verão em Portugal.

São provavelmente os dois nomes que mais aprecio na Fantasia publicada nas últimas décadas, e sempre se degladiaram na minha mente pelo título de melhor autor deste género vivo. Com a partida de Jordan a dúvida (na qual ele tinha vantagem) acaba, infelizmente. Mas as semelhanças entre ambos acaba aqui. Jordan criou um mundo imenso, dezenas de povos e civilizações muito complexas e estruturadas, e centenas de personagens quase principais. Um mundo rico onde nos perdemos positivamente, e acompanhamos as personagens, que aprendemos a gostar, nele. Em Martin o centro são as pessoas.

A magia no mundo de A Canção de Gelo e Fogo é algo do passado, que deixou alguns vestígios, mas que não passa disso, pelo menos de início. Mas as personagens que habitam este mundo são ricas, muito ricas mesmo, mas nada mágicas. Muitas vezes chamo a Martin o Eça de Queirós do Fantástico, tal é o ênfase dado às pessoas, e à crueldade com que por vezes as trata. Ninguém é realmente bom, todos têm defeitos. Não existem raças boas ou más, existem isso sim jogos de poder extremamente complexos, aliados a jogos de sexo, onde por amor, paixão e até incesto, se mata, levantam guerras e se eliminam grandes nobres.

De início somos levados a acompanhar a família Stark de Winterfell, com o seu lema “O inverno está a chegar.”, que são os eternos defensores do Norte dos Sete Reinos. E logo aí o primeiro choque quando vemos o Lord Stark, o gentil e honrado homem (apesar de pai de um bastardo), a obrigar o seu filho Bram, de sete anos, a assistir à execução de uma sentença de morte por decapitação. Sentença esta aplicada por Lord Eddard Stark. Tudo isto porque segundo o próprio é tradição dos seus que quem declara a sentença tem de se sentir livre de a fazer cumprir, mas nunca sentindo prazer nisso.

Editado agora pela Saída de Emergência, é o livro ideal para provar que este género literário não é só para jovens, e não o recomendo a pessoas muito novas, ou sensíveis. É uma saga dura, cruel, pelo simples facto que as pessoas que habitam este mundo serem como as que habitam o nosso, no seu íntimo. Nunca tinha lido nada no Fantástico tão real.

Fica também aqui o convite a quem ler isto para visitar o fórum oficial desta obra em Portugal, moderado pela minha boa amiga Safaa Dib, colega na fundação de diversos projectos online e na Épica. Um fórum em boas e experientes mãos, que tentarei também frequentar.

E apesar de ficar feliz por ter um dos meus autores favoritos na minha língua materna, não sou capaz de preferir ler a tradução em vez da língua em que foi escrito. Especialmente Martin, que usa com regularidade termos em inglês arcaico que me deliciam.

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