Grandes frases – I

Há frases que merecem um post por si só. Esta é uma delas:

Toda a gente pensa em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar-se a si mesmo.

  – Leo Tolstoy

Na versão que li pela primeira vez, em inglês visto não saber russo, era assim:

Everyone thinks of changing the world, but no one thinks of changing himself.

Resquiat in Pace Sir Arthur C. Clarke

ACCportrait Mais uma pessoa que me diz muito no campo da literatura, e do fantástico no seu todo, nos abandona. Parece que desde que iniciei este blog que começa a ser o prato do dia. Mas as pessoas não são eternas, e o grande mestre que nos abandona hoje já não era novo, como ele próprio o disse, já tinha passado mais de noventa órbitas do céu. E com grande humor referiu recentemente que uma pessoa sabe que está velho, quando as velas custam mais que o bolo. Esta frase foi proferida por ele num vídeo, que colocarei aqui no final do texto via youtube, em Dezembro de 2007, por altura do seu nonagésimo aniversário, em que ele próprio admite que a morte está perto, e no qual quis deixar algumas palavras aos seus fãs.

Lembro-me do meu primeiro contacto com Arthur C. Clarke, num verão do inicio da década de 90. Teria eu os meus dez, talvez onze, anos e resolvi ir, como tantas vezes, até à Biblioteca Municipal de Mafra, para ver se alugava um livro. Nesse dia resolvi pegar em ficção cientifica, pois eu gostava de ciência, e o tema haveria de me interessar. 2001 Odisseia no Espaço foi o titulo que me saltou à vista, e lá o trouxe para casa. Ficaria bem dizer que o devorei num instante, mas não foi esse o caso. Lembro-me que demorei algum tempo a lê-lo, provavelmente um mês, até porque achei que era um pouco difícil, e que tinha um final mau até. O que na altura achei difícil, anos mais tarde na releitura, e na língua original, achei delicioso. E o final que achara mau, de repente tornou-se mágico e perfeito. Esta obra era na realidade um pequeno conto que Clarke tinha escrito, mais tarde por desafio de Stanley Kulbric reescrito e aumentado, para aquilo que viria a ser o guião do filme, e finalmente preparado para a versão final em romance.

Parece que a cada passo que dei na minha vida, descobri mais um pouco de Clarke. De escritor de livros que li em criança, passou para referencia como um dos grandes nomes da Ficção Cientifica. Depois dentro desta como um daqueles que realmente até percebia algo de ciência, e se ralava com ela. Não em apenas fazer naves aos tiros, que tão mau nome tem dado ao género. E já na faculdade, no estudo de satélites artificiais e a sua utilização nas telecomunicações, vim a saber que Clarke foi o primeiro a propor tal uso, e a descrever com precisão qual seria a melhor órbita para estes operarem. E esta órbita é a que ainda hoje é utilizada, de tal forma que por muitos é conhecida por Órbita Clarke. Acredito que durante muitos anos ainda vou descobrir mais facetas deste homem, nascido no Reino Unido no início do século passado, e que hoje nos deixou, na ilha onde viveu grande parte da sua vida, e que Camões refere logo no primeiro canto dos Lusíadas como Taprobana. Problemas de respiração tiraram a vida ao homem que ainda em Dezembro dizia que não era por estar preso a uma cadeira de rodas que estava impedido de viajar com a sua mente pelo universo.

Mas se algo me deixa feliz no meio desta noticia de morte, é as palavras do homem, eternizadas por ele em vídeo, em que diz que viveu uma vida grande, e que viu mais nascer e acontecer do que alguma vez supôs. Viveu uma boa vida. Descansa em paz.

Cliquem aqui para ver o vídeo.

Música de Intervenção I – José Carlos Ary dos Santos

ArydosSantosEste texto segue com o nome de Música de Intervenção I, pois de seguida farei outro um pouco em contra ponto. Portugal é dito um país de poetas, e felizmente temos a história polvilhada de grandes mestres desta arte, uns mais conhecidos, outros menos, mas a qualidade existe pelas gerações fora. Muitos deles tiveram algumas das suas obras convertidas em música, na sua maioria anos após a sua morte, desde Florbela Espanca a Camões, mas também tivemos nomes que percorreram o caminho inverso, sendo primeiro conhecidos pelas letras que fizeram para a música, que são verdadeiros poemas. E um desses grandes nomes, é sem dúvida José Carlos Ary dos Santos.

Não acho contudo que toda a música seja poesia, e sinceramente, muitas das músicas que oiço, e aprecio, dificilmente considero tal coisa. Nem toda a música precisa de ser uma boa poesia para ser uma boa música. E muito boa poesia pode falhar na sua transformação para música. E nem tudo o que se escreve em verso, é poesia… Para dizer a verdade, nem sequer precisa de ser verso para ser poesia, mas chega de deambulações.

A poesia de Ary dos Santos não era normalmente vã, e no meio de um regime ditatorial, soube fazer letras para músicas de intervenção, e para as levar ao maior palco da altura, o festival da canção. Fazer letras de intervenção para ser apresentado ao público máximo, fintando primeiro a mão da censura, e depois ser notada o que era ao povo pensante, não era tarefa fácil. Juntando isso a algo que fosse bom o suficiente para ganhar o concurso, e ir até ao palco internacional, era de génio.

Em 1969 finta a censura com a Desfolhada Portuguesa, cantado por Simone de Oliveira, subvertendo e mostrando uma mensagem anti-ditatorial, passa o crivo inicial da censura, e chega ao estrelato, tendo sido posteriormente uma das melhores participações portuguesas do festival Eurovisão da Canção. A censura passou uma vergonha, e não se esperava que se voltasse a deixar enganar. Mas em 1973, durante o completo descrédito da primavera Marcelista, Ary dos Santos repete a graça, desta vez pela voz de Fernando Tordo, e de forma muito mais directa. Fica aqui o vídeo da música, em tributo a um poeta que lutou pela arma que conhecia contra um regime, e me deixa a pensar o quão fracos são os supostos músicos de intervenção do tal Hip Hop Tuga, mas isso vai ser guardado para o artigo que vem em seguida.

Resquiat in Pace Gary Gygax

gygax Cada dia que passa mais pessoas deixam este mundo, mas quando são quem nos disse algo em vida, ou que nos fez usufruir das suas criações, pesa-nos um pouco mais. Há minutos tive a notícia que havia falecido Gary Gygax, um nome que sei que a quase todos os que me lêem, bem, eu pensar que alguém me lê já é uma pretensão bem grande, nada diz provavelmente. Este senhor que abandonou hoje o reino dos vivos foi um dos maiores senhores da nova indústria de jogo, que se revolucionou no século XX.

De início começou por conhecer o jogo mais sério, ou seja não apenas aqueles jogos para crianças, nos anos cinquenta, e a partir daí entrou numa espiral. Não apenas porque tinha boas ideias e visão para jogos, coisa que só vem a tornar pública e forte nos anos 70, mas porque sempre pensou que não são apenas as crianças que têm direito de jogar. E que o jogo pode ser algo bem mais forte. A primeira grande obra que conseguiu, foi a criação de uma associação de jogadores de jogos de estratégia, isto ainda antes do Homem ir à lua, em 1966.

Mais tarde foi na sua casa que a primeira experiência de uma convenção de jogadores veio a acontecer, isto em 1967, com cerca de vinte jogadores. Este evento é conhecido por Gen Con 0, pois foi dela que veio toda a sequência de Gen Con, que hoje é o maior evento de jogo do mundo, que ainda na versão do ano passado teve mais de vinte sete mil participantes. Grande crescimento.

Mas a sua obra mais reconhecida, e à qual é o seu nome ligado para a eternidade é todo o universo, e sistemas de jogo Dungeons and Dragons. Criado por si, e por causa do qual criou uma companhia que durante muitos anos foi lider de mercado, a TSR, todo este sistema de jogo e universo levou o Role Playing Game a milhões (é o jogo do género mais jogado do mundo), e à compra do mesmo pela gigante do ramo Wizards of the Coast (empresa propriedade da Hasbro), que fez dele o seu porta estandarte. O jogo é ainda hoje o mais jogado, vários filmes foram feitos sobre este universo, do qual também centenas de romances foram escritos, e que até séries de televisão teve. A nova versão do sistema de jogo irá ser lançada este ano, e será infelizmente a última a contar com o nome de Gary Gygax, como um dos seus consultores, mas o seu legado ficará para sempre.

Apesar disso, mais que tudo o que Gary Gygax sempre tentou e fez, foi ensinar o mundo que nunca se é velho para sonhar, brincar e aprender. Que a diversão é para todos, pais, filhos e amigos. E para uma pessoa como eu, que teve muitas horas de diversão desde os meus 15-16 anos, com ideias deste senhor, apesar de nos últimos anos não ter jogado nada do género, fica aqui um especial agradecimento para este homem, que hoje deixou de estar entre nós. Descansa em paz.