Este artigo vem no seguimento deste publicado em 15 de Março de 2008.

Em Portugal existe uma longa tradição em música de intervenção, mais de meio século sob a égide de regimes totalitários, sendo deles  quase quarenta e seis anos de estado novo, no século vinte, fizeram as pessoas tentarem encontrar meios de dizer o que realmente pensavam. Foi duro, e com risco que homens como José Carlos Ary dos Santos, José “Zeca” Afonso, José Mário Branco, entre outros, escreveram, e cantaram músicas com enorme carga política, numa época em que tal poderia acarretar pesadas consequências.

Cantaram em nome da liberdade de vivermos numa democracia, e de podermos expressar as nossas convicções pelas palavras, e pelos actos. E nada mais forte numa democracia que o acto do voto. Isto foi ganho por jovens militares, revoltando-se contra o poder opressor que existia, arriscando as suas carreiras, a subsistência das suas famílias e em última instância, a sua própria vida. Arriscaram, quem sabe inspirados por palavras cantadas como as que Ary dos Santos escrevera, e ganharam para todos nós o direito e dever de votar, e a liberdade de nos expressar-mos sobre quem nos deve governar.

E o que fazem pessoas somo o “Sam the Kid”, um suposto músico dos nossos dias? Pedem para mandar-mos para o lixo o direito que foi conseguido com suor e sangue dos nossos pais, e agora para muitos já avós. Passo a citar uma música deste senhor:

Yeah, não sou licenciado nem recenseado,
com paciência, há-de aparecer alguém credenciado, com
moral/
Que me faça votar, me faça lutar, me faça notar,
e faça esgotar a campanha eleitoral/

Primeira prova de ignorância, logo a abrir. Em Portugal não é necessário ter qualquer tipo de formação académica, fora o alfabetismo, para ser eleito. Mais, neste momento um líder de partido, com assento parlamentar,  deputado, e ex-candidato a ministro de Portugal, não tem formação académica superior. Se os portugueses quiserem votar e elege-lo, estão no seu direito, tal como qualquer outro. E se não existem políticos com a visão que este cidadão tem, sempre pode tentar formar um movimento, e depois partido com as suas ideias. É a beleza da democracia. Tem a liberdade para isso.

Por enquanto é só comédia, many manipula os média,
que se excedem a assustar o nosso povo com medo/
Eu não voto, eu boicoto, mas crio as horas nocturnas,
sei qu’é o meu futuro, mas não vou acordar cedo/
Pa pôr um voto nulo ao eleger um chulo ou um cherne,
ou quem governe só com charme mas num mês dá um
terno/
e tropeçam, mal começam quando quebram a promessa,
não me peçam interesse, vocês não se interessam/
Eu não preciso de reflexão eu já, tou decidido,
eu só voto na verdade e não a vejo em nenhum partido/

Realmente, para que acordar cedo para colocar um voto nulo… É bem mais prático ficar a dormir em casa a dormir. Agora se repararmos bem está aqui a segunda barbaridade por falta de conhecimento  do senhor “Sam”. Mas faço o favor de lhe rectificar isso. Em Portugal as urnas estão abertas até as 19:00. Logo, se acha que acordar as 18:30 é acordar tarde, tem aí o seu impedimento como verdade, senão, é apenas mais um acto de ignorância da sua pessoa. E depois, para que votar branco, é melhor ficar na inacção. É esta a visão de “Sam”.

Sim, porque quando no fim do dia eleitoral o que se conta são quem ficou em casa, esses são os preguiçosos para se levantarem e votar. Os que protestam? Protesto é ir às urnas, e votar em branco, é dizer que estás contra qualquer destes projectos de governo deste país. É ver falta de qualidade em cada um dos lideres que se apresentam à eleição. Não o fiz muitas vezes, mas já votei em branco. Se não concordo o suficiente com ninguém, voto em branco, e fica expresso para toda a gente ver no fim do dia, a percentagem de portugueses que não se sentiram retratados em nenhum dos candidatos.

Ficar em casa a dormir, significa que não se quer saber da liberdade que os nossos bravos nos deram, e essa meu caro “Sam”, é uma intervenção bem diferente de ser um miúdo armado em rebelde.

3 COMENTÁRIOS

  1. Nem faço ideia quem seja o Sam the Kid. Sei vagamente que é cantor de RAP, o que é confirmado pelo seu texto.

    Li a letra da música que você colocou neste Post. Para mim, ele quis dizer exactamente o que eu penso. O que eu leio na letra dele é que “alguém à de chegar que o faça votar”, porque os actuais “não vota, porque não acredita nos politicos que actualmente lá estão” e isso é facilmente confirmado na sua última frase: “eu só voto na verdade e não a vejo em nenhum partido”.

    O que eu vejo é que Ary dos Santos combateu contra a politica do seu tempo e Sam the Kid, à sua maneira, também combate contra a politica do seu tempo.

  2. Só um ligeiro reparo semântico… Trocando expressar-mos por expressarmos e mandar-mos por mandarmos o texto fica sem estes erros crassos que defraudam a mensagem tão bem escrita.

    Em caso de duvida, é tirar o -mos e colocar no início do tempo verbal. Expressar-mos fica “mos espressar” o que não corresponde ao que se quer dizer.

    E depois de corrigir o texto, pode apagar o reparo. A intenção foi somente a de melhorar o original. =)

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