Mafra

Situada inicialmente num vale fica a bela e tão característica Mafra. Subiu para ficar placidamente colocada à sombra do seu Convento,  um dos mais magníficos monumentos que conheço, senão o mais magnífico, aquando da sua construção mas continuou sempre igual a sí mesma.

Terra do seu Palácio, ex-libris aqui, e em qualquer parte do mundo. Quem dúvida da magnitude desta obra, que faça uma fotomontagem, e a coloque em qualquer cidade do mundo, e verá que ficará imponente. Esta é uma das suas faces. Mas não fica por aqui, pois edifícios com poder de nos deixar pequenos ao olhá-los, existem sem dúvida muitos. Mas depois o som aparece, e edifícios com uma colecção de seis magníficos orgãos de tubos, não existem. Mais, além disso dois carrilhões completos, e com um poder sonoro único, culminados pela força do seu Sino Maior, o Bizarro. Inigualável. Magnificas estátuas na sua fachada e interior, italianas as primeiras, mas como aqui não se queria apenas comprar, mas também aprender, depois criadas em Mafra, na sua escola de escultura. Tudo isto, e a Tapada, Jardim do Cerco,e Basílica, fazem um edifício unico, mas quando perguntamos qual o ex-libris dentro deste ex-libris, qual a resposta unânime? A Biblioteca. Magnanima em aspecto, e na inigualável quantidade de cultura que alberga, de lembrar que mesmo no tempo da censura e da inquisição, ela continha os livros proibidos, é a parte mais importante de todo este magnifico Palácio/Convento de Mafra. Quando entre tanta beleza física, o mais importante é a cultura, algo de muito especial está presente.

Mas Mafra não é apenas o Palácio, por muito magnifico que seja. Mafra é mais que tudo as suas gentes. Habitada desde o Neolitico, foi ocupada por todos os povos que passaram por Portugal, mas a transição mais interessante é presente aquando da sua conquista por D. Afonso Henriques aos Mouros. Foi apenas mais uma vez, e que tantas se seguiram, em que a população não vergou. Manteve-se como era, não se quis adaptar logo à nova ordem, e como havia sido entregue ao Bispo a sua posse, bem negociou a sua independencia, foral e liberdade de culto. Conseguiu-o, ficando com foral, e homens livres, sendo por isso um dos concelhos mais antigos do país. E como troca, teve de passar a pagar um imposto para poder fazer o Pão, em troco dessa liberdade. Esse imposto, chamava-se Çalaia, e quem o pagava, a pouco e pouco passou a ser conhecido como Saloio. Como tantas vezes ouvi e oiço da boca do meu pai: “Sou Saloio sim, mas parvo não”. E neste orgulho em ser Saloio, perdido noutros concelhos saloios como Sintra e mesmo Cascais, Mafra é ainda diferente e muito me orgulha.

Esta pão é tão conhecido como o próprio palácio a nível nacional. Seja ele simples, ou com chouriço (outro produto bem querido do Saloio), quantas vezes o levei para os colegas do trabalho, pois era algo tão apetecível como um doce regional de outras zonas. Produto regional de qualidade ímpar, e do qual sou um confesso apreciador.

Nasci nesta bela vila, pelo menos é isso que vem nos registos, o local de onde me retiraram da barriga da minha mãe, apenas para ela me trazer de imediato para aqui, é apenas um percalço. Sempre tive orgulho em dizer aos colegas da Faculdade, e depois de Trabalho, que ia no Natal à terra dos meus pais, até lançar a graçola que a terra dos meus pais, era na realidade a minha, tal como também tinha sido a dos meus avós. Mas vinte e oito anos depois isso vai mudar.

Mafra, sempre ouvi dizer que eras Mãe para os de fora que em ti vieram habitar, e Madrasta para os que aqui nasceram, mas felizmente não posso concordar. Para mim sempre me trataste como um filho, e eu te acolhi como Mãe. Parto por vontade para fazer uma vida a dois com alguém que amo, mas no meu coração irá sempre existir um lugar para Mafra. Posso vir a viver em muitas terras, ser feliz em muitos lugares, mas a minha Terra, essa nunca será outra, serei sempre de Mafra, e um Mafrense e Mafrista convicto.