Transformar pessoas em cobradores

Uma das medidas menos faladas do Orçamento de estado 2012, e por lado uma das mais interessantes, é para mim a possibilidade de deduzir até 5% do valor total das compras de particulares, em sede de IRS.

Basicamente o que isto significa é que cada pessoa, cada vez que for às compras, ao restaurante, ou a qualquer outro sitio, e efectuar uma compra, poderá deduzir 5% do IVA desse produto quando apresentar o seu IRS.

Para quem for mais ingénuo, poderá pensar que isto é apenas uma medida de fomento ao consumo, e uma forma de receber parte do que se gasta de volta, ajudando a minimizar um pouco o resto da subida de impostos. Não poderiam estar mais enganados. Por um lado, tudo isso é verdade, por outro, e pensando um pouco mais à frente, o verdadeiro alcance da medida aparece: tornar o cidadão um cobrador de impostos.

Muitas vezes, e mesmo com inúmeras campanhas em contrário, quando efectuamos alguma compra, ou pagamos algum serviço, dispensamos a factura. Não nos serve para nada, e damos pouca importância a esse documento. No entanto uma das melhores formas para se conseguir uma fuga ao fisco, é evitar passar facturas, logo evitando devolver o valor de IVA ao estado.

Ao dar algo ao comum mortal para ele fazer com as facturas, e neste caso o algo é dinheiro. E dinheiro as pessoas querem, e estão dispostas a ter um pouco mais de trabalho por causa disso. É neste momento expectável que aumente o número de facturas emitidas, aumentando a eficácia da tributação do IVA. Isto enquanto se dá ligeiramente mais dinheiro ao consumidor, e se fomenta o consumo.

Quanto a mim, muito bem imaginado, e concretizado.

Coelhos com tomates

Existe uma coisa que me faz confusão nos discursos de muita gente de esquerda, e dos protestantes, a maioria deles da minha geração, nos últimos dias. Ambos dizem que não devemos pagar nada, e que tudo se resolve sem problemas. O mesmo para milhares de funcionários públicos chocados com os cortes terem recaído sobre os seus ombros.

Meus amigos, vou dizer algo que pensava que todos já deviam saber. O estado não tem dinheiro. Esta é a mais dura das realidades. Políticas criminosas, e práticas igualmente criminosas de compadrios e afins,  conduziram-nos a esta situação, e estou cem por cento de acordo que os responsáveis deviam ser entregues à justiça. Mas o problema agora é o que fazer, como meter o estado a carburar bem, e a pagar as obrigações do dia a dia, já hoje.

O estado português é gordo, pesado e excessivo. Não tem um verdadeiro controlo de qualidade nos recursos humanos que alberga, ao contrário do sector privado onde se tem realmente de trabalhar, e apenas é bom profissional quem tem brio, e gostem ou não, são poucos. Para piorar isto, até agora o estado em média pagava melhor que o sector privado. Tudo isto não faz sentido nenhum. Passos Coelho vai mexer aqui, vai perder milhares de votos no processo, mas teve de o fazer, pois dinheiro não existe, e chega de politicas Guterristas de enfiar a cabeça na areia, ou de mentiras Socráticas.

Outro ponto necessário era ajudar as empresas privadas em altura de crise. Falou-se em baixar a Taxa Social Única sobre as empresas. Era uma medida que claramente agradava às empresas, mas que gastaria dinheiro ao estado. Como o estado não tem dinheiro, teria de ser feita alguma ginástica, aumentando outros impostos, para poder fazer isto. Inventivamente o governo resolveu aumentar, também temporariamente, o número máximo de horas de trabalho diárias, dando algo às empresas, não gastando dinheiro do estado. Vai-me custar obviamente no pelo isto, se bem que ao contrário do funcionalismo público, já é raro o trabalhador do privado que cumpra o horário à risca, e não fique lá mais um bocado a acabar coisas. Mais uma medida que vai fazer perder votos a Pedro Passos Coelho, mas que infelizmente, devido à situação do país, tem todo o meu apoio.

Agora fala-se que o próximo sector a afectar fortemente será o sector de transportes públicos do estado. Mais uma vaca sagrada do estado que dá um prejuízo gigantesco, e que não se percebe. Todas as empresas transportadoras do estado dão prejuízo forte, no entanto as mesmas do sector privado, lembro-me aqui logo do Grupo Barraqueiro, dão lucros constantes e sólidos. Será por medidas como os motoristas da Carris trabalharem apenas 4 horas por dia, com ordenados acima da média, e que os filhos, genros, enteados e primos terem viagens à borla em toda a rede? Como este exemplo há tantos outros, e que têm de ser cortados.

Tenho muitos amigos, familiares e conhecidos que são funcionários públicos, em todas as áreas, mas têm de admitir que isto não podia continuar assim.

Sei que com tudo isto vai provavelmente fazer Passos Coelho perder as próximas eleições, a não ser que daqui a quatro anos isto já estivesse num nível muito melhor. Mas penso que esta atitude de coragem do nosso Primeiro-Ministro, ao contrário do último que oferecia computadores à custa do dinheiro dos contribuintes, parece-me ser o caminho a seguir. Força, e viva Portugal.

Às vezes a democracia custa…

A democracia, representativa no caso Português, é um principio de liberdade, e de colocar a responsabilidade para o cidadão na escolha de quem deve gerir o que é Público. Ontem fez-se democracia na Madeira, será correcto dizer isto?

Para mim, e ignorando as questões sobre a minha opinião pessoal sobre a figura de Alberto João Jardim  e os seus desvarios governativos,  tenho de admitir que se fez. As pessoas votaram, e escolheram. Como são os madeirenses os eleitores para aquele órgão de soberania, cabe a eles, e apenas a eles, decidirem, e foi o que fizeram.

Claro que vem logo a malta do costume queixar-se que as eleições foram negativas, e pouco representativa, devido ao facto da enorme abstenção. Meus caros, quem não vota, é porque não quis ser representado. Passo a frente.

Mas para mim, o ponto alto da noite, e um hino à falta de democracia, cabe mais uma vez ao PCP, na voz do seu líder Jerónimo de Sousa.

Um resultado explicado pelo sentimento de desânimo designadamente de apoiantes da CDU que, fustigados de forma mais particular pelo agravamento exponencial das injustiças, do desemprego e da pobreza, não acreditaram que com a sua decisão e o seu voto podiam contribuir para penalizar quem lhes agravou as condições de vida e reforçar aqueles com quem contam para construir uma vida melhor.

– Jerónimo de Sousa

Ou seja, este senhor acha que a culpa das pessoas não votarem CDU foi estarem desanimados, e que esse voto não iria mudar nada. Será que este senhor leu parcialmente bem a questão? É que na prática o que ele admite, e que eu concordo, é que a população acha que as suas ideias, e o seu partido não fazem, nem farão, nada para melhorar o País ou a Região. Estou plenamente de acordo. Se calhar o próprio Jerónimo é que não, mas só se dará conta disso quando entender o que realmente disse…

Mas também resultado da dispersão de votos em candidaturas inconsequentes e até provocatórias, que embora sem projecto nem valor próprio beneficiaram de uma generosa mediatização destinada não só a favorece-las mas a impedir o crescimento da força mais consequente e capaz de se opor e dar combate ao programa de exploração que atinge os madeirenses.

– Jerónimo de Sousa

Votos em candidaturas inconsequentes e até provocatórias? Quem é o senhor Jerónimo para dizer isso? O partido trabalhista, conhecido como partido do Coelhinho, tem um ridículo, e até mal educado, mas tem tanto direito como o PCP ou qualquer outro. Mais, na Madeira actual, até tem mais direito, pois teve mais votação. E quando o líder da bancada parlamentar do partido de Jerónimo de Sousa, Bernardino Machado, vem dizer que a Coreira do Norte e Cuba são democracias, não é isso mais inconsequente e até provocatório? Quando convidam lideres de organizações terroristas como as FARC, para a festa anual do seu partido, quando estas são perseguidas por governos democráticos de países com relações cordiais com Portugal? Isso não é muito mais inconsequente e provocatório que as palermices do líder do partido trabalhista?

Caro Jerónimo de Sousa, eu sei que o senhor não dá muito valor à democracia, senão não defendia os regimes actuais e históricos que defende, mas esta funciona assim: ganha quem tem mais votos colocados nas urnas. Os que ficaram em casa, não são seus para vir tomar posse deles, nem vitórias morais servem para alguma coisa. Felizmente graças ao 25 de Novembro de 1975, o povo é quem mais ordena. Mesmo quando coloca tipos que me parecem retirados de um conto de humor no poder.