Um dos meus autores de eleição, especialmente na adolescência, foi sem qualquer sombra de dúvida Sir Arthur Conan Doyle. E muito por causa dos romances de Sherlock Holmes. Isso levou mais tarde a ser dos primeiros livros que me aventurei a ler na língua original, mesmo existindo traduções para a nossa. Sempre gostei do espírito analítico desta personagem, a sua atitude perante o mundo, que ele simplesmente acha incrível não reparar nas coisas tão elementares. Torna-o um personagem ainda mais complexo a sua paixão à ciência e ao conhecimento, que o torna quase um ser assexuado. A sua relação, de amizade quiçá,  com Watson, que sem dúvida o admira mas passa um cabo dos trabalhos nas suas mãos.

E no recente filme de Guy Ritchie, isso foi das poucas coisas em que acabou por ser fiel ao personagem de Doyle, a sua relação com Watson, que está mesmo muito bem conseguida e retratada. O resto… Bem, ver Sherlock como uma pessoa atormentada pelo destino da sua amante, é estranho, para não dizer mais. As cenas de pugilato e kung-fu, mesmo que em livros como “O sinal dos quatro”, seja referido que Sherlock foi um pugilista na sua juventude, parecem excessivas e são muito mais presentes que as cenas de análise pura. Isto para não me lembrar que muitas das cenas de análise são feitas como uma forma de imaginar e simular combates, para depois usar técnicas de slow motion à lá Matrix.

Mas para mim, muito mais distante que a parte física, incomoda-me a parte psicológica. Sherlock, um personagem que conheço como frio, calculista e quase socialmente desligado, torna-se de repente um James Bond vitoriano. Impulsivo ao extremo, quase desejoso de entrar em combate e até resistente a tortura física ao nível de Rambo.

Isto quer dizer que foi uma má experiência, e um mau filme? Não necessariamente, isto se me desligar de que era Sherlock Holmes. A banda sonora está bastante boa, no momento certo e coesa. A fotografia está muito boa, com o estilo a que somos habituados em filmes que retratam a época vitoriana, a até as cenas de acção são bastante boas e entretêm. Não é de facto um filme de grande cariz psicológico, nem que nos faça pensar ou sequer maravilhar pela interação entre personagens e os seus diálogos. Mas para quem quiser ver apenas um filme num sábado a noite, para descontrair de uma semana de trabalho, não deixa de ser uma boa escolha.

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