Troika – Uma história para pensar

dinheiro

Muito se tem escrito e falado sobre a Troika, mas parece-me que ainda muita gente não entendeu bem quem é esta Troika, o que veio cá fazer, e como cá chegou.

Podia muito bem tentar agora começar a tentar discutir sobre a constituição desta Troika formada pelo FMI, BCE e CE, e em tudo o que a fez cá chegar. Mas ao bom estilo português, ou provavelmente ao estilo Ocidental Judaico-Cristão, ficar-me-ei por uma pequena história.

Numa aldeia no interior vivia o senhor Anacleto, um industrial de meia idade que se orgulhava de ser uma pessoa criativa e bem na vida. Tudo o que fazia era para o bem da sua extensa família e rede de amigos e colaboradores.

Em casa nada podia faltar aos seus filhos e mulher. Uma casa grande e com um enorme jardim. Filhos a estudar na faculdade, para a qual iam de carros desportivos e onde tinham apartamentos de três assoalhadas para cada um. A sua esposa, devota senhora com a qual partilhava uma vida já há tantos anos, tinha direito a ser mimada. As constantes idas ao estrangeiro para comprar roupa, tal como as idas quase diárias ao cabeleireiro eram algo que lhe era devido. Claro que tais coisas lhe roubavam o tempo para as lides da casa, mas o seu esposo sempre à altura cedo lhe retirou esse problema contratando duas senhoras para fazerem esses serviços.

Na empresa, tudo era pelo melhor. A firma tinha muitos funcionários, especialmente na parte dos escritórios mesmo sendo uma indústria de transformação, todos eles bem pagos para os manter felizes. Claro que alguns recebiam menos, e até eram que mais trabalhava, mas esses eram os empregados da parte produtiva da firma, e que não eram conhecidos do senhor Anacleto quando lá chegaram.

Nos escritórios da firma era onde se via que realmente o senhor Anacleto era amigo do seu amigo. Eram funcionários do escritório os seus amigos da escola, e claramente recebiam o justo para que tivessem uma vida boa e com todas as regalias que deviam. Eram lá empregados também familiares seus e da sua esposa, claro que também bem pagos, visto a família estar sempre em primeiro lugar. Quem também era funcionária lá era Gertrudes, a sua companhia nas alturas em que a sua mulher se tinha de ausentar para o estrangeiro para se dedicar às suas compras. E claro está, também bem paga para poder cuidar bem de si e do menino que o Anacleto lhe tinha feito.

Com o infortuno da crise internacional, a empresa do senhor Anacleto, montada e mantida à custa de dinheiro oferecido por estrangeiros para ele se modernizar, começou a não ter tanto dinheiro oferecido, e a ter de viver do que realmente produzia. Mas numa empresa familiar é normal algumas pessoas não produzirem tanto, mas também merecem o seu salário condigno e que lhes possibilite uma boa vida. Lá por apenas uma em cada dez realmente produzir, isso não devia ser um problema.

Mas o senhor Anacleto sabia como resolver o seu problema, bastava ir falar com os bancos, e as coisas resolveriam. Enquanto um banco emprestava, era o seu melhor amigo, mas mal este via que era empréstimo atrás de empréstimo, lá acabavam por lhe fechar a porta. A coisa foi correndo bem, enquanto havia um novo banco para ele ir pedir a seguir, mas até isso acabou, quando a porta do último banco se fechou.

Havia o risco sério de os salários entrarem em atraso. E os seus funcionários, especialmente os amigos, familiares e a Gertrudes, nunca iriam arranjar um trabalho, ou melhor um emprego, que lhes pagasse o mesmo que ganhavam ali. Ou pior, além de lhes pagarem menos poderiam mesmo obrigá-los a trabalhar realmente! E eles andavam naquilo à tantos anos que claro que não estavam preparados física e psicologicamente para o mercado real. E a casa? A sua esposa não poderia ficar privada dos seus luxos para os quais tinha real direito. E os filhos? A faculdade ainda ficava a quase meia hora de viagem, isto nos carros deles, porque se fossem de transportes públicos podia chegar quase a quarenta minutos. O que fazer?

Lembrou-se de pedir ajuda a todos os que conseguia lembrar-se e finalmente um grupo de três investidores resolveu que o iria ajudar. Emprestar-lhe-ia dinheiro, a juros de mercado, mas com a condição que eles passariam a vistoriar as suas contas, e a ter uma opinião sobre o que deveria ser feito. E claro, o senhor Anacleto teria de fazer uma reestruturação à sua empresa, especialmente livrando-se de carga não produtiva, e colocando os vencimentos à altura da realidade e da sua produção. Da sua família, e dos gastos elevados e talvez excessivos que tinha com ela, os investidores falaram pouco, porque também tinham casos desses nas suas famílias, mas também deveria ser visto. Para mais, o dinheiro que lhe emprestariam, seria entregue em parcelas, e só seria entregue a próxima parcela, se estivesse finalmente a endireitar-se e a mudar de vida.

Claro que nas primeiras vezes que foram avaliar a evolução, muito pouco tinha mudado. Alguns empregados tinham-se reformado, e um ou outro dos que trabalhavam realmente viram que isto estava a começar a correr mal e foram para outro país. Quando finalmente os investidores começaram a pressionar, e a pedir para que algo fosse feito, ou então cortariam o dinheiro, lá o senhor Anacleto foi forçado a falar com alguns dos amigos e familiares. Claro que nenhum deles aceitou começar a trabalhar a sério ou a baixar o seu rendimento. Isto para além da Gertrudes ter ameaçado que se ele voltava a falar do assunto iria falar com a esposa do senhor Anacleto. E no fim foram todos começar a fazer greve, sendo que pouca diferença se notou na produção da empresa… E ainda está neste ponto.

Agora substituam o senhor Anacleto pelo estado Português, a sua empresa pela função pública, os investidores pela Troika, e a família pelo corpo político Português.

Irão ver algumas semelhanças….