Fez hoje quarenta e seis anos que um grupo de oficiais Portugueses se revoltou contra o poder de uma ditadura ultraconservadora que vigorava em Portugal desde o Golpe de 28 de Maio de 1926.

Isto são factos facilmente comprováveis e inegáveis para qualquer pessoa com bom senso, e devem ser estes os acontecimentos comemorados. A partir daí entramos num mundo complexo, muito complexo mesmo, de propaganda, revisionismo e aproveitamento.

Tentar limitar a Revolução de Abril apenas à Conquista da Liberdade, é redutor, e ao mesmo tempo perigoso. Houve mais que um motivo que levou aquela revolta e revolução. Desde a perda da Guerra na vertente militar na Guiné às promoções ao quadro dos Oficiais Milicianos, fintando assim os privilégios dos militares de carreira.

Tal como é perigoso pensar que durante os quase quarenta e oito anos que durou esta ditadura não houve tentativas de acabar com ela, tirando o caso de Humberto Delgado. Perde-se assim para a história personagens interessantes e complexas como Craveiro Lopes que mesmo tento sido Presidente da República nesse período teve de ser limitado e afastado por Salazar. Há muitas nuances neste regime ditatorial que não podem ser ignorados, e transformá-lo em algo de preto e branco apenas torna o futuro mais perigoso.

Mas claro, hoje quem tenta fazer o revisionismo por esse prisma tenta fazer passar que nesses quase quarenta e oito anos as coisas foram melhores. Havia mais segurança, menos corrupção e até nos conseguimos livrar da Guerra.

Mais segurança havia, não duvido. Pelo menos para os delitos que não de opinião. Um estado conservador e altamente policial tem essa consequência. Faz parte da matriz de qualquer ditadura, desde a União Soviética até Cuba, passando por Portugal do Estado Novo e o Brasil da Junta Militar. Trocam a segurança pela liberdade? Eu não, peço desculpa.

No que toca à corrupção, só alguém muito mal-informado poderá pensar dessa forma. Até poderia haver menos pequena corrupção, mas a grande corrupção era uma instituição por si própria. O Estado interligado com alguns, poucos, grupos económicos é em si mesma uma forma de corrupção, mesmo quando autorizada legalmente por um regime.

Quanto ao livrar-nos da Guerra, até 1961 poderíamos dizer isso, e podemos dizer que durante a Segunda Guerra Mundial António Salazar esteve muito bem nas manobras políticas de parte a parte para manter a nossa neutralidade.

Agora este mesmo regime deu-nos a Guerra Colonial. Nela ficou uma geração, ou mesmo duas, de bons rapazes Portugueses. Ficaram lá mais de oito mil mortos. Oficialmente mais de 15 mil vieram com deficiências permanentes, físicas e/ou psicológicas. E não oficialmente tivemos toda uma juventude que foi para uma Guerra que não percebia sacrificando muito de si até ao dia de hoje. Poucos que por lá passaram terão saído de lá incólumes, e até hoje vivem com isso.

Hoje vemos inúmeras manifestações de louvor a Salgueiro Maia, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, e até a Zeca Afonso, pela liberdade que nos deram.

Agradeço-lhes, mas não é a eles que estou mais agradecido. Foram mais de oitenta oficiais que se reuniram para fazer este golpe. De entre eles saiu a promessa de fazer o golpe, acabar a guerra colonial, dar o poder ao povo, e retirar-se da vida política e pública.

Foram eles, não partidos, movimentos, ou grupos que depois se tentaram aproveitar o que se seguiu, que fizeram Abril. Foram eles que na sua quase totalidade fizeram o que tinha de ser feito, e seguiram com a sua vida em menos de dois anos.

Se hoje posso escrever livremente isto em muito lhes devo. A eles, aos anónimos Oficiais, Capitães e outros, que a 25 de Abril se revoltaram contra a Lei que não era Justa e correndo todos os riscos, da sua liberdade e vida, nos deram a liberdade.

Se o fizeram apenas pela liberdade, por medo, por regalias metidas em causa. por motivos políticos, ou seja, o que quer que os tenha juntado a este movimento e levado e este desfecho pouco interessa.

Fizeram-no, libertaram um povo, ou até vários povos, e ficaram na história apenas como os Capitães de Abril. A eles, um sincero Obrigado.

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